Observação: contém spoilers, inclusive do final do livro.

I. Penumbra

A vida de Martín Santomé está entardecendo, e ele anda à cata de um interruptor. Na primeira anotação desse romance em forma de diário, aos quase cinquenta anos, viúvo e pai de três filhos com os quais não se dá, Martín anseia pela aposentadoria próxima. Não é tanto do ócio que precisa, diz, mas sim “do direito a trabalhar no que eu quiser”. Revisa as atividades possíveis: jardinagem, violão, talvez escrever.

Despreza os colegas do escritório, não tem qualquer relação pessoal com o conteúdo de seu trabalho. Difícil culpá-lo: é contador ou algo parecido. Gosta quando há rotina, que lhe permite dedicar parte da mente a alguma tarefa mecânica, deixando a outra livre para sonhar, pensar no que bem entender.

Mas acima desse incômodo e daquela aspiração, acima da atração que sente pela atividade da escrita (é a que parece mais lhe interessar), está a preocupação com a própria imagem. Sua imaginação ocupa-se não dos possíveis temas e formas, do que talvez possa descobrir escrevendo – mas da percepção do público. A ideia de ser elogiado em termos vagos e convencionais numa notinha de jornal lhe causa repugnância. Por que isso? Responde dizendo-se ingênuo e imaturo; não se sente no direito de exibir essas qualidades para o mundo. Sente que escrever seria como o exibir-se esperançoso de uma criança ávida por aplausos. Cita o caso de uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, mostrava-a a todos tendo no rosto um sorriso que lhe brotara na adolescência, quando se exibia para o namorado motoqueiro. O medo de parecer tolo é o que mais o assombra.

II. Luz

Em meio aos questionamentos sobre o que fará após a aposentadoria, às  refinadas análises da própria personalidade e do casamento com Isabel, morta há anos, e ao desgosto por não ter uma boa relação com os filhos, Martín encontra o interruptor que acenderá a luz: uma funcionária do escritório em que trabalha, de nome Avellaneda.

Seria melhor dizer um dimmer – a luz não se acende por completo logo de primeira, não só devido à hesitação própria de toda aproximação amorosa, que não falta à deles, como também e principalmente ao ceticismo natural de Martín, intensificado pela diferença de idade entre si e Avellaneda, que pouco passou dos vinte anos: “Mas estou por demais alerta para me sentir totalmente feliz. Alerta ante mim mesmo, ante a sorte, ante esse único futuro tangível que se chama amanhã. Alerta, ou seja: desconfiado.”

Mas a luz por fim atinge a intensidade máxima, transformando e abrindo a vida de Martín. Os trechos que descrevem essa luz plena são os mais bonitos de seu diário:

Choveu a cântaros, depois do meio-dia. Ficamos vinte minutos numa esquina, esperando que estiasse, olhando desalentadamente as pessoas que corriam. Mas estávamos nos resfriando sem remédio e comecei a espirrar com uma regularidade ameaçadora. Conseguir um táxi era algo impossível. Estávamos a duas quadras do apartamento e decidimos ir a pé. Na realidade, corremos também nós como loucos e chegamos ao apartamento em três ensopados minutos. Fiquei um tempinho com uma enorme fadiga, largado sobre a cama como um traste inútil. Antes, porém, tive forças para procurar uma manta e envolvê-la. Ela havia tirado o casaquinho, que jorrava, e também a saia, que ficou uma lástima. Aos poucos fui-me acalmando e, em meia hora, já me sentia aquecido. Fui até a cozinha, acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. Lá do quarto, ela me chamou. Levantara-se assim mesmo, embrulhada na manta, e estava junto à janela, vendo chover. Eu me aproximei, também olhei como chovia, e por alguns minutos não dissemos nada. De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura. Eu nunca havia sido tão plenamente feliz como naquele momento, mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo, pelo menos naquele grau, com aquela intensidade. O ápice é assim, claro que é assim.

Mas a luz que Avellaneda lança sobre sua vida não se resume a instantes mudos de bem-aventurança. A felicidade entre os dois é também recheada de palavras – a luz é também intelectual:

Não há diversão, não há espetáculo que possa substituir o que desfrutamos nesse exercício de sinceridade, de franqueza. Já vamos adquirindo um treinamento maior. Porque também é preciso habituar-se à sinceridade. (…) certas vezes, nestes diálogos francos com Avellaneda, eu me vi pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos. É possível isso?

*

Avellaneda tem isso de bom: faz a pessoa descobrir coisas em si mesma, conhecer-se melhor. Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivificante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma, que se chama lucidez, até as zonas mais intrincadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e, sobre as perguntas que ela me faz, eu me faço muitas mais, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido.

III. Treva

O leitor inteligente (que eu não fui) só precisa juntar o que sabe sobre o enredo (o que a contracapa informa sobre o enredo) – homem triste se apaixona e é correspondido – com o título para deduzir o que acontece no final: Avellaneda morre, Martín torna-se viúvo pela segunda vez.

Então, quando movi os lábios para dizer: “Morreu”, então vi minha imunda solidão, isso que havia restado de mim, que era bem pouco. Com todo o egoísmo de que dispunha, pensei em mim mesmo, no remendado ansioso que eu agora passava a ser. Mas, ao mesmo tempo, essa era a mais generosa forma de pensar nela, a mais total de imaginá-la. Porque até o dia 23 de setembro, às três da tarde, eu tinha muito mais de Avellaneda do que de mim. Ela havia começado a entrar em mim, a transformar-se em mim, como um rio que se mistura demais com o mar e por fim torna-se salgado como o mar. Por isso, quando movia os lábios e dizia: “Morreu”, eu me sentia trespassado, despojado, vazio, sem mérito. Alguém tinha vindo e decretado: “Despojem esse sujeito de quatro quintas partes do seu ser.” E me haviam despojado.

Não há mais luz, própria ou externa. Martín passa a desentender o que a presença de Avellaneda lhe tornara claro:

Enquanto existiu Avellaneda, eu compreendi melhor a época de Isabel, compreendi melhor a própria Isabel. Mas, agora, Avellaneda não existe mais, e Isabel desapareceu atrás de uma espessa, de uma obscura cortina de abatimento.

E, não tendo poder algum sobre as trevas de seu coração, decide aceitar outra escuridão, a intelectual. Diz, numa das últimas entradas do diário: “(…) não anotarei mais nada nesta caderneta. O mundo perdeu o interesse. Não serei eu a registrar esse fato.”

IV. A máscara monstruosa

Numa anotação lá pelo meio do livro, Martín fala da máscara que usamos (que ele usa) no cotidiano, e acrescenta-lhe uma característica inesperada: ela não só é vista pelos outros, como também vê os outros. É uma máscara sem espaços abertos para os olhos: ela própria tem o seu par.

Será daí, dessa segunda característica da máscara, que se origina o temor do narrador, expresso na primeira anotação, de ser visto como uma espécie de pedinte? À primeira vista essa hipótese não faz sentido. O temor expresso diz respeito à imagem que terá para o mundo. Mas de onde vem a preponderância desse temor sobre o interesse por qualquer uma das atividades às quais cogita se dedicar?

Dois trechos do primeiro terço do livro:

Porque existe a opinião que alguém pode ter de si mesmo, algo que, inacreditavelmente, pouco tem a ver com vaidade. Refiro-me à opinião cem por cento sincera, aquela que a pessoa não se atreveria a confessar nem ao espelho diante do qual faz a barba. Recordo que houve uma época (entre meus 16 e 20 anos, mais ou menos) em que tive uma boa, quase diria excelente opinião de mim mesmo. Sentia-me com ânimo para começar e levar a cabo “algo grande”, para ser útil a muitos, para endireitar as coisas. Não se pode afirmar que minha atitude fosse cretinamente egocêntrica. Embora eu quisesse receber a aceitação e até o aplauso alheios, creio que meu primeiro objetivo não era usar os outros, mas ser-lhes útil. Bem sei que isso não é caridade pura e cristã; mas tampouco me importa muito o sentido cristão da caridade. Recordo que eu não pretendia ajudar os necessitados, ou os malucos, ou os miseráveis (acredito cada vez menos na ajuda caoticamente distribuída). Minha intenção era mais modesta: simplesmente ser útil aos meus iguais, a quem tivesse um direito mais compreensível de precisar de mim.

*

O que desejo hoje é muito mais modesto do que aquilo que desejava trinta anos atrás, e, sobretudo, importa-me bem menos obtê-lo. Aposentadoria, por exemplo. É uma aspiração, naturalmente, mas é uma aspiração em declínio. Sei que vai chegar, sei que virá sozinha, sei que não será preciso que eu proponha nada. Assim é fácil, assim vale a pena entregar-se e tomar decisões.

Martín deixou que suas aspirações de juventude (que “pouco [têm] a ver com vaidade”) fossem substituídas por aspirações que nada lhe custam, aspirações pré-fabricadas. Deixou que seus próprios olhos atrofiassem. Na ausência deles, não admira que a preocupação com a própria imagem diante do mundo saia vencedora.

A segurança de me saber capaz para algo melhor me deu o controle da postergação, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina jamais tenha tido caráter nem definição; foi sempre provisória, sempre constituiu um rumo precário, a ser seguido apenas enquanto durava a postergação, apenas para aguentar o dever da jornada durante esse período de preparação que por certo eu considerava imprescindível, antes de me lançar definitivamente à concretização do meu destino.

 

V.

Será isso suficiente para explicar o fato de, após a morte de Avellaneda, Martín escolher abandonar o diário, aceitar a derrota espiritual? Alguém diferente dele, que não tivesse perdido os próprios olhos, reagiria de outro modo? Não sei dizer.

É por não conseguir me decidir entre um julgamento – que diz respeito ao dever ser, às possibilidades que Martín de algum modo frustrou em si mesmo, e outro – o que se rende à realidade iluminadora do amor entre os dois, à impressão de que sem ela não pode haver senão treva – que considero A trégua um ótimo romance. Não posso condenar Martín por “morrer” junto com Avellaneda, tendo com ela vivido na acepção mais plena; não posso deixar de perceber em suas fraquezas a razão de sua queda.

A trégua, Mario Benedetti. Tradução de Joana Angélica D’Ávila Melo. Alfaguara, 2007.

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